terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu Matei Caetano Veloso - Parte 7

Capítulo 5



Soares, sentindo uma dormência no traseiro, se levantou de seu banco e dirigiu-se à porta do furgão para abri-la. Recebeu, como prêmio, um safanão do soldado Williams.
-Mas que merda?- Indagou Soares, deixando que o resto da frase se falasse sozinha.
-Quieto Soares!- sussurrou Orfeu, o chefe de operações, enquanto fazia com sua boca caretas exageradas para mostrar que, não fosse a situação, estaria berrando com ele.
“Orfeu”, de nome completo Orfeu Temporário da Matriz Firmino, e era o homem que, mais cedo naquele dia, entrara com truculência no escritório/consultório/casa do detetive Soares e o cooptara á participar de uma operação pouco ortodoxa e quase certamente ilegal, sobre a qual ele ainda sabia muito pouco. Agora que o calor aumentara consideravelmente e a brisa matinal começara à arrefecer frente à umidade inclemente, estava ainda suando muito mais, coisa que Soares julgava ser impossível, e fedia, uma conseqüência que ele anteriormente não havia conseguido imaginar(estava muito ocupado levando bordoadas).
-Mas quieto, quieto porque? O que pode acontecer aqui?
-Ora, Soares, não se faça de tolo!- Orfeu rapidamente adotou um tom de condescendência pegajosa.- O que pode acontecer é óbvio. Estamos em uma parte particularmente nojenta da cidade, cheia de maconheiros descerebrados. Nós somos, segundo eles- Orfeu então ergueu os braços sobre a cabeça e fez em cada mão, com os dedos indicador e do meio, realizando assim  sinal internacional para as aspas- os “agentes da repressão”. Não vou dizer que eles estão errados, afinal, sou mesmo um agente, e gosto de reprimir por aí de tempos em tempos- Orfeu deu uma risadinha.- Mas, no momento, devemos tratar cada um dos passantes na rua como um traidor em potencial, que vai nos denunciar para Cassius assim que o fato que estamos em uma missão à serviço da República Legalista do Brasil der muito na vista.
Soares não podia fazer nada contra a palavra de Orfeu, mesmo que quisesse, ou que ela não fizesse sentido, e nesse caso, ela até que fazia.
-Mas, não vou negar- anunciou Orfeu, tirando com grande afetação um lenço do bolso do sobretudo para enxugar o rosto- que esperar aqui é um porre.
-Boss, who exactly are we waiting for?-perguntou um soldado no banco do carona.
-We’re waiting for the other detective, private.- Respondeu Orfeu, com um pesadíssimo sotaque baiano.
Soares tinha na verdade pouco conhecimento da língua inglesa, mas dominava melhor a língua “Baianglo-Saxônica”, aquela bizarra e extremamente típica forma de falar inglês que se desenvolvera nas regiões do Nordeste ocupadas pelos Americanos, envolvendo um sotaque formado à partir da pronunciação fonética das palavras vistas em placas de aviso, do toque de recolher e outras tantas mídias que faziam parte da realidade da ocupação. Assim, pôde perfeitamente entender do que Orfeu estava falando.
-Peraí, peraí, peraí. Que história é essa de outro detetive?
Orfeu subitamente mordeu o lábio inferior. Não esperava que Soares fosse entender o que estava dizendo. Tentou então se tirar daquela situação desconfortável.
-Bom, sabe, como eu disse, essa é uma operação um tanto grande. Tem muita coisa em jogo. É por isso que contratamos dois detetives.
-Ah é, é? Interessante- Disse Soares, fingindo que tentava mascarar a indignação. Se estão me cooptando pra fazer um trabalho sujo, que façam direito, Pensou.-Muito bem, mas quando contrataram esse sujeito? À uma, duas horas, atrás?
-O que? Não, claro que não, ele está nessa operação há bem mais tempo que você. Foi ele quem instalou as escutas. É a especialidade dele. Aliás- dirigiu-se então novamente ao soldado que estava no banco do carona- Tell me, private, when should he be arriving, again?
-At noon, sir.
-Puta que pariu, e já são quase meio dia e meia. O que me lembra que eu preciso tomar o meu remédio- disse, sorrindo para Soares tentando ser casual. Tirou então de outro bolso do sobretudo um pequeno pote de vidro, dentro do qual, cujo conteúdo eram várias pílulas vermelhas e azuis. Orfeu separou duas, uma de cada cor, e se preparava para engoli-las, quando subitamente, apertou-as em sua mão e abaixou os óculos.
-Excelente, ele chegou.
Soares olhou para a rua pela janela e percebeu que de fato, um outro furgão, quase idêntico àquele em que estavam,tinha parado logo atrás deles. Sua porta então deslizou e saíram dois homens: um era mais velho, de pele rosada e cabelo cor de fogo, e carregava o que Soares acreditava ser um enorme baioneta. O outro tinha uma pele mais escura que a roupa, uma jaqueta simples com um colete á prova de balas por baixo. Sua careca reluzia sob o sol; Soares tinha certeza que o conhecia.
Foi então que a verdade se abateu sobre Soares como um meteoro. Ele conhecia aquele homem.
Quando ele se aproximou o suficiente, Orfeu abriu a porta e, agarrando Soares pelo braço, levou-o para fora do carro com a truculência habitual. Soares não parava de olhar para o homem que se aproximava- e notou então que ele começara à fazer o mesmo.
-Detetive Soares- disse Orfeu, fazendo um sorriso desnecessariamente largo- Gostaria que conhecesse Geraldo Ary Carvalho,um de nossos maiores colaboradores.
É, é ele mesmo- pensou Soares.
-Ora ora, se não é o velho Soares- disse Geraldo sorrindo, e estendendo a mão.

*****

Como descrever o ilustre Geraldo Carvalho? Sem dúvida, para a maioria das pessoas, era um homem elegante, na faixa de trinta e tantos anos, que se encontrava geralmente em boa forma física, e tinha gosto por roupas caras, apesar do seu trabalho não muito bem-remunerado. Fazia sucesso com as mulheres por seu refinamento e por ser um tremendo pé de valsa, mas por mais que todas as fêmeas da cidade implorassem por sua companhia(e talvez algo mais), ele tinha interesse mesmo era nas mais novas, as que ainda poderiam ser chamadas "garotas", ou, na gíria da moda, "brotinhos".
Para Soares porém, Geraldo Carvalho era um pilantra, um sacana de marca maior cujo passatempo preferido nos últimos dois anos parecia ser infernizá-lo.
-FFFilho da puta- disse Soares, entre-dentes, enquanto estendia a mão e apertava a de Geraldo, esperando momentaneamente que não tivesse sibilado aquelas palavras alto demais.
*****
Tudo começara havia quase dois anos, em Maio de 1966. Soares, após passar por alguns maus bocados no ano anterior, finalmente sentia que a sua vida poderia ter um final feliz afinal de contas. A agência de detetives ia de vento em popa e, por um breve momento, Soares cogitou contratar subalternos, simplesmente para ter poder sobre alguém. É claro, havia também um outro motivo, mais pragmático, e o que ele usava geralmente para justificar suas ambições de contratação no lugar da simples megalomania: Estava completamente submerso em casos que ainda precisavam ser resolvidos. Foi por isso que, quando Dona Griselda apresentou à ele seu problema, Soares abafou uma risada e disse que não seria possível atendê-la, pelo menos no momento. Dona Griselda era empregada doméstica, mas a inflação descontrolada, o colapso econômico do país e a quase anulação das leis trabalhistas desde a ocupação tinham prejudicado sua renda e ela poderia inclusive perder seu modesto e insalubre barraco na Favela de Calabar. Por isso, completava o orçamento criando galinhas em uma clareira no canto do morro. Havia, porém, surgido um problema: Jà faziam três semanas, as galinhas estavam sendo roubadas uma à uma, e logo não sobraria nenhuma.
Soares olhava para Griselda de trás de sua austera mesa enquanto ela relatava as suas sofridas condições, dando detalhes melodramáticos, mencionando inclusive o nome das galinhas(eram Jacqueline, Capitu, Brigitte, Catherine e Ingrid), mostrando sempre seus dentes escurecidos pela falta de cuidados.
Ao final de sua lamúria, uma Dona Griselda de rosto inchado e vermelho de tanto chorar recebeu de Soares, falando em um tom neutro, objetivo, frio e cortado por longas pausas silenciosas que não seria possível ajudá-la. Griselda disse que se o problema era dinheiro, ela poderia juntá-lo facilmente e que iria pagar o mais cedo possível. "Juro por São Tomás", ela disse. Soares não entendeu porque aquele santo em particular, mas deixou isso de lado e mentiu assegurando-a de que o dinheiro não era parte do problema; ele apenas estava muito ocupado. Griselda deixou a sala sem virar de costas até chegar na porta, mantendo por todo o curto trajeto um olhar desgostoso de decepção e desconfiança.
Perder um cliente era uma coisa que costumava perturbar Soares, mas daquela vez ele tinha quase cem por cento de certeza de que tinha tomado uma boa decisão; afinal, a tal de Griselda evidentemente não poderia pagar pelo serviço, à menos que pagasse com as galinhas, que Soares poderia acabar aceitando mesmo sem saber verdadeiramente o valor de uma galinha. A mentira que contara também não era total: uma família tradicional, quatrocentona, tinha lhe oferecido uma bela soma para encontrar as jóias da família, incluindo-se aí um raro diamante lapidado datado do Século 18, que haviam sido roubadas havia quase um mês e que ninguém tinha sido capaz de encontrar. Os Guaracy, Soares acreditava, poderiam dar uma bela recompensa se ele de fato encontrasse as jóias- E Antonella Guaracy, a quarentona de cachos negros límpidos, vestido azul com decote pra lá de escandaloso e formas generosas escondidas debaixo do protocolo da classe alta e da frieza de quem está realizando um mero pacto de negócios, parecia um bônus interessante para alem da óbvia compensação monetária.
Mesmo assim, não pôde deixar de achar estranho quando viu a mesma Dona Griselda, baixinha, curva, usando um vestido rosa surrado que não lhe cairia bem nem se estivesse em bom estado, andando ao lado de um sujeito alto, longilíneo, jovem, e preto que nem carvão. Poderia ser qualquer um- um filho, talvez um neto, um sobrinho, qualquer familiar próximo- não fosse por um simples detalhe: o sobretudo.
O sobretudo era a marca registrada não-oficial dos detetives particulares- ainda que, no campo das coisas não-oficiais, que no caso dos detetives particulares eram muitas, à começar pela própria profissão, o sobretudo tinha a posição confortável de ser um consenso. Ninguém entendia muito bem de onde havia surgido esse consenso, embora Soares tivesse um palpite: os estúdios de cinema americanos haviam aproveitado a invasão para relançar no país os clássicos do cinema noir dos anos 40(Soares se lembrava distintamente de ter assistido pelo menos dois desses filmes desde que chegara em Salvador). Então, talvez com o objetivo de se fazer reconhecer diante do povo, os detetives adotaram o figurino dos ianques esguios de "Selva de Concreto" e "O Falcão Maltês". Subitamente, um à um os detetives particulares passaram á ser distinguidos por seus sobretudos das mais variadas cores, fossem elas bege ou cinza, bege-acinzentado ou cinza-bege. Soares estranhara o fato de encontrar tantas pessoas usando casacos longos e grossos tão perto do verão, na época em que chegou na cidade, mas poucos meses depois ele mesmo se rendera à moda do sobretudo. Soares, logo, não precisou usar suas grandes habilidades de detetive para saber que aquele jovem homem era um dos seus.
Mas não era isso que o preocupava: podia sentir uma aura ameaçadora vinda do jovem homem, embora não acreditasse muito em auras.
Conforme descobriria mais tarde, aquele homem era Geraldo Ary Carvalho, e se tornaria o maior pé no saco que Soares já conhecera, e o principal motivo pelo qual às vezes, ele cogitava abandonar aquela vida ingrata de detetive particular, construir uma jangada e se lançar ao mar, rumo ao vazio. Era uma morte poética, pensava Soares, e o pior que poderia acontecer era ele ser devorado por tubarões, ou morrer de inanição. Ou, sei lá, chegar à África.
Mas, naquele longínquo ano de 1966, Geraldo Carvalho, o “Gê” era só o mais novo de uma lista de detetives rivais, e que tinha acabado de lhe roubar o cliente. Mesmo sentindo uma certa aflição por perder o caso de Dona Griselda, Soares não se deixou levar e, na verdade, mergulhou a cabeça no trabalho, passando a maior parte de seu dia pensando no caso dos diamantes roubados. Montou na mesa de seu escritório um enorme painel conectando com barbantes as fotos e informações de diversos suspeitos, todos com motivos críveis, que crescia dia após dia. Sua concentração montando a gigantesca rede de conspirações só era perturbada ocasionalmente quando pensava na(mulher que encomendou a enquete) tendo tórridas fantasias sobre o que faria com ela quando tivesse em suas mãos o diamante. Nelas, ela o agradecia pelo excelente serviço prestado, antes de se sentar em seu sofá, levantando pouco à pouco o vestido enquanto cruzava as pernas de maneira sugestiva.
Foi de uma dessas noites de trabalho intensivo e paixões imaginárias que acordou no dia que viraria seu mundo de ponta-cabeça. Como sempre, sua aparência ao acordar não era das melhores e na verdade ele estava sofrendo de uma pesada dor e cabeça, mas lá no fundo se sentia bem, com uma intensidade que dificilmente experimentara nos últimos três anos. Após passar dias montando uma lista de possíveis culpados, elaborara um pódio daqueles que julgava mais prováveis e estava prestes à apresentá-los para (mulher). Arrumou-se rapidamente e saiu de seu escritório, com a papelada enrolada debaixo do braço. O dia estava radiante e mesmo a cidade, normalmente tão suja e no limite do que poderia se chamar de sórdido, parecia recebê-lo de cabeça erguida.
Ao virar uma esquina, uma rua que ainda conhecia mal mas que agora se lembrava como sendo a rua Y, viu uma convidativa banca de jornal que acabara de abrir. Mesmo com a sua importante missão, no momento nada parecia mais importante e belo do que aquele senhor de idade, de cabelos brancos curtos, bigode e boina de português, abrindo a porta de metal de seu modesto estabelecimento. Movido por um instinto semelhante ao de quando comprara seu primeiro e último Acarajé, Soares andou rumo à banca de jornal e pediu a edição diária d’O Novo Bahiano, o único jornal que dava algum foco ao que se passava na cidade e não apenas na linha do front.
E foi então, no momento em que dobrou a primeira página do jornal que viu, ao lado da foto de um guerrilheiro comunista capturado, o sorriso do sujeito que vira ao lado de Dona Griselda, segurando nas mãos um colar de pérolas. Na manchete, lia-se:
DETETIVE INTRÉPIDO RESOLVE DOIS CASOS IMPOSSÍVEIS
A curiosidade tomou conta de Soares, e ele leu a matéria diversas vezes, até quase decorá-la por completo. Não conseguia acreditar como havia sido burro.
O artigo descrevia em longos floreios o método engenhoso que o jovem detetive Geraldo Carvalho tinha usado para capturar uma gangue de malfeitores. Tudo começou quando estava trabalhando para Griselda Pereira, uma moradora da Favela do Calabar, cujas galinhas haviam sido roubadas. Geraldo comprou de seu próprio bolso uma galinha, e a deixou no picadeiro de Griselda. Se os ladrões ainda estivessem na ativa, pegariam a deixa- e Geraldo, que montava guarda lá, poderia seguí-los.
Assim, na madrugada do dia 7 de Fevereiro, Geraldo vira os ladrões- um grupo de crianças moradoras de rua, vulgarmente apelidadas de pivetes. Gerald então seguiu os pivetes até seu esconderijo- um lixão quase nos limites da cidade(nessa hora, o autor do artigo ficava criativo e dava ao lixão nomes imponentes como “o portão do inferno” ou “deserto sem esperança”) e lá descobriu que os pivetes estavam alimentando todas as galinhas em um cercado. “Então eu fiz o que tinha que fazer”-era o que Geraldo, citado entre um par de aspas, dizia naquela parte do artigo. Subentendiam-se muitas coisas por aquela frase, e quase todas davam calafrios à Soares.
De qualquer maneira, Geraldo recuperara as galinhas e, no dia seguinte, elas já haviam retornado para Dona Griselda. Porém, pouco mais de um dia depois, ele recebera uma ligação da mesma Dona Griselda, dizendo que suas galinhas estavam doentes. Mas não era qualquer doença. As galinhas estavam defecando diamantes.
O novo mistério levou mais tempo para ser solucionado, mas, ao chegar àquela arte do artigo, Soares já havia entendido o que acontecera. Os pivetes haviam roubado as jóias da família Guaracy, mas perceberam que seria impossível penhorá-las na cidade- Antonella já as havia celebrizado em uma dúzia de eventos-, logo haviam também roubado galinhas, à quem deram de comer as jóias, para que então saíssem da cidade sem suspeitas. “Só não contavam com o Super Geraldo filho da puta”, pensou Sares enquanto terminava de ler o artigo pela terceira vez.
Geraldo encontrou a família Guaracy através de anúncios em vários jornais, e, apesar de recusar a recompensa que a família lhe oferecera, ele nem precisava aceitar- o caso se espalhara por toda a cidade, primeiro como justificativa para o modelo de “Justiça terceirizada”, depois como exemplo de cidadania, até finalmente cair na boca do povo. As chances de Soares de se tornar o maior detetive de Salvador haviam acabado ali.
-Fffffilho da puta- sibilou mais uma vez Soares enquanto Geraldo apertava sua mão. Pelos olhares desconfortáveis que a maioria das pessoas à sua volta lhe lançavam, ele havia falado alto demais.
Geraldo, de repente abrindo um sorriso jocoso, decidiu quebrar o silêncio:
-E aí, Soares... pegando muitas galinhas recentemente?
Todos deram uma saudável risada. “Essa história realmente foi longe”, pensou Soares, não sem algum rancor. O homem ao lado de Geraldo, que, Soares pôde notar, debaixo de seu uniforme militar usava uma batina de padre, foi o primeiro à parar de rir e o primeiro à falar.
-Ai, ai ai. Demos umas boas risadas, não? Mas bom, temos trabalho à realizar. Orfeu, ele sabe da missão?
-Acredito que sim- disse Orfeu, tirando um pequeno lenço bordado com motivos florais de seu bolso e esfregando-o em seu rosto de onde o suor pingava, abundante. “Quantas coisas esse cara guarda nos bolsos? Parece que o casaco dele não tem fundo”, pensou Soares.
-Detetive Soares, este é o Sargento Brandão, da Milícia de Jesus, um de nossos colaboradores mais freqüentes.
Soares não pôde deixar de tremer um pouco ao ouvir aquele nome associado à uma pessoa tão amigável. A Milícia de Jesus havia conquistado uma pouco desejável fama nos últimos anos. Quase tudo sobre ela era desconhecido, exceto o seu modus operandi: atacar, em bandos de 12, cidades do interior acusadas de abrigar comunistas. Se um sequer fosse descoberto, a cidade era punida de variadas maneiras. Soares se lembrava de um em particular, que vira em uma edição d’O Novo Bahiano havia menos de seis meses. Uma patrulha americana que estava passando pelo lugarejo de Vila Rosada encontrou a cidade vazia, mas as portas de todas as casas estavam abertas, e havia fortes indícios de que um combate havia ocorrido. Quando os americanos foram patrulhar o cemitério, porém, a população foi encontrada. Mais de uma centena de homens, mulheres e crianças haviam sido crucificados em postes de madeira. Alguns ainda estavam vivos, e falaram de bandos andando com lenços brancos no pescoço- o uniforme da Milícia de Jesus. A lembrança das fotos no artigo faziam o sangue de Soares gelar.
-Bom dia, meu filho- disse Brandão.
-B-Bom dia.
-Que lindo, vocês todos se conhecem agora.- disse Orfeu.- Mas agora o que você vai fazer é entrar lá, dizer que vai cumprir a missão, e só isso.
Soares ergueu as sobrancelhas de surpresa. “Se for só isso, será a grana mais fácil que já ganhei. “
-Claro, depois haverá mais o que fazer...
“Óbvio.”
-...Mas no momento, é só isso. Tente ser gentil, usar frases curtas e objetivas. Ah, e tente não lembrar à ele de que você é branco.
Soares ainda se perguntava o que significaria aquela última frase enquanto adentrava o prédio.

*****

-Entra logo filho da puta! Estamos em guerra!- berrou o homem na porta, puxando Soares para dentro pelo braço.
Ele não devia ter mais de 25 anos, usava um tipo de camisa rendada de lã, óculos escuros e uma arma ameaçadoramente reluzente. E haviam mais de 5 não muito diferentes dele naquele mesmo quarto.
“Então esse é o esconderijo de Cassius”, pensou Soares, usando sua visão periférica para examinar cuidadosamente o quarto em que se encontrava no minuto que tinha até se encontrar com o líder.
Apesar de se situar em uma zona relativamente nobre de Salvador, o apartamento era um dos mais podres em que Soares já estivera, isso sem contar o seu próprio. As paredes pareciam ceder sobre o mofo que nelas se acumulava, que era tão espesso que dava à elas uma aparência brilhante debaixo da luz pálida e esverdeada que vinha de uma lâmpada acoplada à um ventilador quebrado. De fato, tudo lá parecia estar em algum tom de verde- desde as paredes, até o carpete grosso, úmido e manchado, passando pelos vários sofás decrépitos que vazavam enchimento e os sete closets- ou pelo menos pareciam ser closets- dispostos em uma ordem aleatória pelas paredes.
O choro alto de uma criança interrompeu seus pensamentos e o desconcentrou. Só então notou que todas as pessoas no quarto estavam olhando para ele.
-O grande Madiba diz que você pode entrar. Mas eu vou com você- diz o homem que havia aberto a porta.
O homem então, tirando uma chave do bolso, abre um dos closets. De dentro da porta, sai uma forte luz branca, que inunda quase toda a sala, e um vapor que parecia rastejar no chão.
A sala dentro do closet estava repleta de uma fumaça espessa, e Soares reconheceria aquele cheiro de maresia em qualquer lugar. Estranhamente, a luz branca e cegante vinha das janelas- eram provavelmente painéis de vidro instalados por sobre janelas muradas, atrás das quais haviam sido postas algumas lâmpadas particularmente poderosas. Uma mesa de madeira gasta, cujas pontas descascavam profusamente, estava à frente da cadeira giratória acolchoada onde sentava Cassius. Isto é, pelo menos até onde Soares podia supor, já que ele ainda não havia se virado.
-Você deve estar se perguntando porquê não me virei até agora- disse uma voz grave vinda de trás da cadeira.
-Olha, de fato...
-É simples. Você vem aqui, e entra em minha base de operações. Não te conheço, nem sei quem é. Estamos prestes à assinar um contrato de importância capital. Ao contrário da luta diária da nossa raça, que labutou sol à sol durante séculos e está somente agora juntando as forças que adquiriu nesse longo exílio para usar contra seus antigos mestres, uma luta em que eu posso definir quem você é e para quem trabalha usando seu nome e a clareza de sua pele, nesse contrato eu não sou seu mestre. Eu sou apenas seu irmão. Diga, filho, eu acho que conheço a sua voz.
Estranhamente, Soares tinha a mesma impressão.
-É, de fato parece...
-Continuemos. Detetive...
-Soares.
-Detetive Soares. Meu grupo não é apenas um Exército.- Soares se perguntou de que exército ele estava falando. Seriam aqueles cinco caras na sala?- Mais que isso, ele é uma família. Obá me abençoou com três filhos saudáveis, e quatro lindas e férteis esposas. Bom, três, mas isso não muda o argumento principal: Esse exército é minha vida, e por extensão, é a vida de muita gente. Era também a vida de minha sobrinha. O senhor consegue ver a minha sobrinha nesse momento?
“O que será que ele está querendo dizer?” pensou Soares, e então ele viu na mesa um porta-retrato, com a foto desbotada de uma pequena garota negra de tranças, em um uniforme escolar.
-Sim, estou vendo.- arriscou Soares.
-Muito perspicaz. Sabe, isso é tão simples, e mesmo assim os dois últimos detetives não souberam responder. Mandei-os embora na mesma hora. Um pouco de poder dedutivo é o mínimo que se pode ter.
Soares olhou para a arma e, por um momento, achou que mandar os detetives embora não era a única coisa que Cassius fazia.
-Hà um mês, minha sobrinha foi seqüestrada. Nós não sabemos que, não sabemos por que motivo. A sua missão é simples: Descubra quem a tomou de mim e porquê. Responda à essas dúvidas, e nada mais. O senhor é um detetive. Não posso pedir que saia atirando e traga ela de volta para mim. Isso é trabalho da família.
Um curto silêncio se fez. Soares não soube o que dizer. “Ok, ele terminou de falar. Melhor ir embora antes que ele fique irritado com a minha presença.”, pensou, recuando.
-Onde você pensa que vai? Eu por acaso pedi pra você sair?
Soares parou, acometido de um frio na espinha. Como ele havia ouvido seus passos silenciosos, ele jamais saberia.
-Não senhor- disse, tremendo.
-Certo. Você será acompanhado, em sua investigação, por um membro da família. Ela fiscalizará se você está fazendo o trabalho bem. Ela se chama Cléopatra, e está atrás de você.
Soares se virou, e a primeira coisa que viu foi uma mulher de um metro e oitenta, o rosto parcialmente coberto por um farto Black Power e um par de óculos escuros. Usava uma livrara de Cleópatra, mas ela voltaria no dia seguinte, e isso significaria mais algumas horas dirigindo à esmo pela cidade, jogando conversa fora com uma pessoa que ele odiava.
Resolveu ligar para Orfeu, para ventilar um pouco suas preocupações e falar com uma pessoa para quem não precisaria mentir- muito.
-Capitão Orfeu, pois não?- disse a grave voz do outro lado do pequeno telefone de plástico azul.
-Orfeu, sou eu, o Soares. Eu...
-Ora, é claro que eu reconheço a sua voz, Soares. Apenas digo “Capitão Orfeu, pois não” por protocolo.
Então porquê me interrompeu?- pensou Soares, mas tratou de ir direto ao ponto.
-Orfeu, estou com problemas.
-É, eu vi. E aí, comeu?
-O quê?
-A neguinha, comeu?
-O que? Não, porra, claro que não. Mulher chata dos infernos.
-Pena.
-Orfeu, você não tá entendendo.
-É claro que eu entendo. Ao invés de passar o dia investigando, você quer entregar o dossiê e ficar nisso mesmo.
-Sim.
-E não dá pra fazer isso com ela ao seu lado.
-Exato.
jaqueta militar, e Soares tinha certeza, mais nada por baixo. Soares ainda não tinha idéia de como ela havia entrado sem que ele percebesse.
-Agora está liberado. Viu? É fácil. É só me obedecer.
Escoltado por Cleópatra, Soares deixou o apartamento.

*****

-Okay, então como vamos fazer isso?
-Cala a boca e entra no carro, branquelo. Isso é uma guerra.
Cleópatra abriu a porta do carro- um Cadillac velho e batido dos anos cinqüenta- e fez sinal para que Soares entrasse.
-Certo, desculpa por revelar a sua posição. Mas como vamos fazer isso?
-Você é o detetive, você deveria dizer onde começamos. Quem, você acha, é o principal suspeito? Pense, homem.
“Porra, eu mal te conheço e já te odeio”, pensou Soares.
-Olha, pra um detetive, você é ruim mesmo.- disse Cleópatra, ajustando os óculos que refletiam forte o sol do meio-dia. O vidro e a carroceria fariam a mesma coisa, se não estivessem sujos e enferrujados.
-Certo. Vamos deixar isso de lado. O Cassius...
-Shh! Deixa de ser imbecil, branquelo. Use um código. Isso aqui é uma guerra.
-Como o quê?
-Ah, não sei, porra branquelo, algo como, sei lá, chefia.
-Certo. O “chefia” te deu algum papel com informações que eu deveria saber sobre a sobrinha dele?
-Porra branquelo! Não! Pode ter alguém escutando essa merda de conversa, use um código, como...
E assim foi. Soares precisou se segurar para não bater o carro de propósito. Ele olhou para as pessoas que estavam do outro lado da rua e que até agora desprezava- o Capitão Orfeu, Sargento Brandão, e até o maldito Geraldo- e viu como até eles pareciam se compadecer de sua situação. Uma coisa era certa: seria impossível conduzir uma verdadeira investigação falsa com aquela mulher na sua cola.

*****

Soares desabou na sua cama após o que pareceu ter sido uma semana inteira fora dela. Já se

As condições haviam piorado bastante. Agora não apenas o governo estava na sua cola, como a sua única chance em meses de descolar um trocado haviam sido solapadas por acontecimentos maiores e mais cheios de melanina do que ele. Havia uma única chance de resolver essa situação, e isso era tomando uma ação vigorosa e corajosa. Porém, Soares não era um homem de ações vigorosas e corajosas, e por isso decidiu ligar para Orfeu em busca de conselhos.
-Escritório do Capitão Orfeu, pois não.
-Orfeu, sou eu, o Soares.
-Ora, é claro que é você, Soares, eu reconheceria sua voz em qualquer lugar. Apenas digo “Escritório do Capitão Orfeu, pois não” por protocolo.- A sua voz adquirira uma tonalidade informal e descontraída, que Soares já conhecia e que, pela experiência (e pela marca visível de um galo em sua cabeça), vinha sempre carregada de segundas intenções.
-Orfeu, eu estou com problemas.- disse Soares, tentando ir direto ao ponto.
-É, eu sei.
-É a Cleópatra.
-Ah, tá, ela tem nome. E aí, comeu?
-Hein?
-A neguinha, você traçou ela?
-O que?! Não, claro que não! Porra homem, vamos tentar manter isso sério!
- Ah, tá, tá bom.-Orfeu recuperou rapidamente a compostura e adotou mais uma vez um tom de voz alegre e apoiador.- É disso que eu gosto em você, Soares, você vai direto ao ponto! É um investigador de verdade.
-Agradeço os elogios, Orfeu, mas eu realmente estou com um problema aqui- disse Soares, irritadiço.
-Eu entendo o seu problema. Infelizmente, não é minha tarefa ajudar você.
-Como não?
-Seja criativo, homem! Invente algum jeito de se livrar dela. Câmbio e desligo.
Ele não desligou o telefone; Soares pôde ouvir saindo do cabo do telefone uma frase que se assemelhava à algo como “Quer dizer então que a neguinha tá livre?” antes de desligá-lo ele próprio.
Soares observou a alça do telefone por alguns segundos. Então, tomado de raiva contra os homens do governo que lhe tinham emboscado para dentro dessa missão e agora lhe abandonavam sem cerimônia ou um mísero “foi mal”, “desculpa”, pegou o telefone e jogou-o com força sobre a alça, derrubando o pequeno aparelho em um gesto incompleto de má vontade. Ainda insatisfeito com sua vingança sobre o pequeno eletrodoméstico, deu-o um chute que isolou-o em um canto de seu exíguo quarto. Agora sentia que havia exagerado na dose, mas o telefone estava muito longe e no momento, haviam assuntos mais importantes a serem tratados, dentre os quais como se livrar de sua co-investigadora megera. Várias idéias passaram por sua cabeça como vagões de um mesmo trem, que rapidamente descarrilava; por isso, entenda-se que ele descartava as idéias muito rapidamente.
Sem aviso, uma idéia tomou de assalto o território que ia de sua orelha esquerda à sua orelha direita e das sobrancelhas até a sua nuca. Era uma idéia que beirava o irracional, mas, quem sabe, poderia funcionar. Ele a vira num filme que entrara em cartaz havia uns seis meses, “As portas da fúria”. O filme não era bom; a idéia dava pro gasto.

Recuperou seu inocente aparelho de telecomunicações do chão, limpando-o, restabelecendo-o à sua posição original e finalmente ligando para Orfeu, que ouviu tudo com paciência e agradeceu a proposta. Finda a ligação, Soares atirou-se em sua cama em um único gesto(um salto), tendo consciência de que ainda estava usando as roupas do trabalho, o que sem dúvida lhe valeria uma noite de sono desagradável e várias marcas de costura pelo corpo quando acordasse, mas estava muito feliz para se importar.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Eu Matei Caetano Veloso - Parte 6

Capítulo 26


Editora Saber do Povo, 7h25 da manhã. Os corpos impacientes de acadêmicos frustrados, carreiristas do Partido, donas de casa que escreviam nas horas vagas e cujas amigas elogiavam os textos, largados como cadáveres sobre as cadeiras metálicas afofadas com estofo azul, sua respiração lenta acompanhando o zumbir do ar-condicionado a única coisa a indicar que ainda estavam vivos: A safra matinal repetitiva da Editora, pronta a entregar seus manuscritos provavelmente cheios de erros, pretensões experimentais, e uso exacerbado de palavras como “lúgubre”, “transcendente”, “calopsita” e “exacerbado”. A tarefa de cortar todas aquelas palavras pretensiosas e reduzir os inchados manuscritos a algo publicável (isso quando se conseguia salvar alguma coisa) pertencia, é claro, à Vice-Administradora da sucursal de Salvador, Camilla Buri. Quando ela entrou no escritório pela sala de espera - a entrada era única – pôde sentir a temperatura da sala subindo dois graus, e o batimento das pessoas presentes se acelerando. Camilla tinha certo orgulho de, mesmo não tendo uma profissão particularmente notável, já ser conhecida o suficiente do grande público e de membros subalternos do Partido para ser reconhecida por um número razoável das pessoas com que cruzava- os Curupiras não obstante.
Camilla gostava de ver à si mesma como um dos guardas da muralha de armadura brilhante em algum desses livros de fantasia, protegendo a Cultura - com ‘c’ maiúsculo – de uma horda interminável de invasores traiçoeiros esverdeados, vestidos com peles de animais e grasnando idiomas incompreensíveis. Uma guardiã do bem, deixando passar as obras que fariam bem à sociedade, jogando às outras no fosso do castelo. Essa imagem sempre a fazia se sentir animada de manhã.
Se era oficialmente Vice-Administradora daquela sucursal, na prática, era mesmo a Diretora. O administrador oficial era um homem de 90 anos que sofria de sinusite crônica e escoliose, além de um Lupo que lhe carcomia o nariz, para não mencionar a obesidade mórbida que deixava seu rosto semelhante à uma pêra ferida. Seu Luís teoricamente lutara na Revolução, embora, pelas contas de Camilla, ele fosse velho demais para segurar uma arma até naquela época. Geralmente incapaz de comparecer ao trabalho no dia à dia, deixava a administração para Camilla.
-Dia movimentado hoje, não?- disse Camilla com um sorriso discreto, e Rafael levantou timidamente o olhar enquanto ela passava, aparentemente sem tempo ou intenção de receber uma resposta.
-Bom dia- disse Rafael mesmo assim. Rafael era o rapaz da papelada.
-Está cheio mesmo, não é?- continuou Rafael, ensaiando uma conversa informal com sua chefa – os dois teoricamente eram iguais, mas Camilla ganhara destaque no Partido nos últimos anos e portanto a palavra chave nessa relação era “teoricamente”.
Camilla não chegou à ouvir o que Rafael dissera – embalada pela corrida, entrara no escritório em ritmo frenético, atirando sua bolsa na cadeira azul de tecido áspero e dando passos desnecessariamente largos até sua mesa.
-Pronto para massacrar alguém?- praticamente berrava Rafael, do outro lado da parede azul-clara de um material que poderia ser o filho bastardo da madeira e do plástico.
-Com certeza- disse, dando sua primeira resposta. Em seus primeiros anos, teria sido mais cautelosa, mas estes não eram mais seus primeiros anos. Há tempos ela aprendera que insultar as pessoas encafifadas naquela claustrofóbica repartição não representava problema algum; os ocupantes das cadeiras, com seus corpos molengas liquefeitos, poses desconfortáveis, bocas abertas letargicamente sob o olhar vazio das sete da manhã estavam muito preocupados em agradá-la para que reclamassem sobre algo tão tolo como maus tratos.
-Quem é nossa primeira vítima?- perguntou à Rafael, também gritando.
-Um tal Camarada D’Este. Camarada D’Este, levante-se por favor e vá até o escritório. É a sua hora- disse, dessa vez pelo microfone acoplado à sua mesa. Rafael uma vez confidenciara à Camilla que usar o microfone era uma das poucas partes do dia que ele achava mais que suportável.
Camilla batucou sua mesa, que devia ser do mesmo material da parede, ou então uma mistura qualquer com fórmica. O bastardo de um bastardo. A mesa era quadrada e de cor creme, combinando com o computador quase completamente cúbico, da mesma cor. O teclado era composto de cubinhos diminutos de design indistinto, de dimensão análoga à do computador, algo denunciado pelo botão de desligar, que, ao invés de ter imprimido sobre si a palavra “desligar”, consistia em uma reprodução em miniatura do computador, incluindo uma pequena tela de vidro, já permanentemente engordurada com as digitais de Camilla.
A mesa jazia sobre um carpete puído de cor bege; não muito ao longe, uma samambaia se derramava sobre um pote marrom-claro, caída por falta de luz, curva e flácida diante de duas luminárias de metal que se dobravam em um eixo, emitindo luz de uma cumbuca prateada debaixo da qual havia uma lâmpada elétrica. O ar-condicionado zunia como uma canção de ninar constante e metálica.
Há pouco mais de cinco metros da mesa de Camilla, uma porta se abriu. Abriu-se lentamente; Camilla sorriu. Sorrir fazia parte do protocolo, mas naquele caso era também um ato espontâneo. Uma porta se abrindo lentamente era geralmente sinal de uma pessoa tímida, portanto mais fácil de convencer a ir embora.
Um vento curioso sacudiu a sala no momento em a porta se abriu, interrompendo por um breve momento o zumbido do ar-condicionado. Para dentro caminhou um homem baixo e corpulento, usando um sobretudo marrom. Cultivava um bigode fino que lhe atravessava o rosto sem sorriso; sua pele era rosada e seus olhos azuis.
-Por favor, sente-se- convidou Camilla, sorrindo com os dentes à mostra e as mãos cruzadas na altura dos dedos.
O homem a obedeceu e puxou uma cadeira de acolchoamento branco, sentando-se e já tirando do sobretudo um envelope de papel pardo.
-Com licença, eu pedi para você se sentar?- disse Camilla, fazendo desaparecer seu sorriso.
O homem botou o pacote de volta no casaco.
-Na verdade sim. Você acabou de fazer isso.
Camilla levantou uma de suas sobrancelhas e evitou contato visual direto, concentrando-se na pequena bandeira União das Repúblicas Socialistas da América que guardava sobre a mesa.
-O camarada não daqui, não é?
-Como?
-É muito raro levantarem a voz comigo.
O homem parecia surpreso e emitiu um riso abafado. De perto, Camilla podia ver que além do bigode, guardava uma barba mal-feita, algo que nos últimos anos se tornara um tanto incomum. Oficiais do Exército e líderes do Partido ainda guardavam suas barbas como uma lembrança de que haviam lutado na selva e na caatinga, onde faltava de tudo, principalmente lâminas de barbear. Uma barba hoje só trazia respeito se você tivesse 35 para cima.
-Não queria ser desrespeitoso- continuou o homem, mas com um ar de quem dizia exatamente o oposto. -Essas minhas pernas hoje em dia dão cada vez menos pro gasto- disse, dando um leve tapa no joelho.
-Pernas?
-É. Por isso sentei o mais rápido que pude.
Ambos se encararam por alguns segundos com sorrisos plásticos.
-Camarada, você veio aqui por um motivo, suponho, e espero que este não seja me fazer perder o meu tempo.
-Naturalmente- disse D’Este, tirando novamente o pacote do sobretudo. Depositou-o com cuidado sobre a escrivaninha de Camilla.
Abrindo-o, Camilla se deparou com algumas poucas palavras digitadas em uma máquina de escrever, sobre um papel que já não era mais branco, mas ainda não adquirira a tez amarelada das folhas mais antigas- Pré-Revolucionárias, por assim dizer.
O título do manuscrito estava impresso em letras garrafais sobre o papel.

EU MATEI CAETANO VELOSO:
UM ROMANCE

-Isso é brincadeira, né?- foi a primeira reação de Camilla ao ver aquele título. Ainda assim, ele o deixara intrigada.
Caetano Veloso era talvez um dos símbolos mais brilhantes do artista engajado- após um exílio auto-imposto em 1965, ele redefiniu a música brasileira de fora com seus álbuns Psicodelito(1966), Calos nos Dedos e Coronel e Cangaceiro(ambos de 1967), hoje clássicos incontornáveis da música brasileira; era piada recorrente, para não dizer conhecimento geral, que a única música que o Partido parecia apreciar mais que a música clássica eram as músicas de Caetano Veloso.
A grande virada de sua volta ocorreu quando, tomado por um até hoje pouco explicado ímpeto nacionalista, resolveu retornar para o Brasil, então envolvido no período mais intenso da Guerra Revolucionária. Pouco se sabe sobre seu envolvimento nos acontecimentos de Janeiro de 1968, mas se sabe que ele estava em Salvador no momento em que as tropas da Frente Revolucionária Anti-Imperialista tomaram a cidade em uma única noite, iniciando o efeito dominó que em breve levaria o Exército Americano a recuar do Nordeste.
E mais nada. Ninguém sabe o que aconteceu com Caetano Veloso. Segundo amigos pessoais, ele realmente estava na cidade na época; segundo certos testemunhos duvidosos, ele ajudou o FRAI, enfrentando os americanos rua por rua; segundo uns, ele morreu no combate. Segundo as teorias dos tablóides, ele se desentendeu com a FRAI logo após a conquista de Salvador, e vive hoje no Sertão, comandando uma guerrilha contra o domínio do Partido: Camilla já perdera a conta de quantos jornais já vira sendo distribuídos com uma manchete do estilo “A Caça a Caetano Veloso prossegue”, “A Nova Revolução se aproxima”; tudo era na verdade, pelo menos segundo ela mesma, um esquema bem-pensado para atrair jovens para o interior e fazê-los comprar alguns suvenires.
O fato é que todos os dados apresentados até hoje eram absolutamente inconclusivos. Uma investigação realizada no começo da década de 90, após as lendas urbanas chegarem a um nível de histeria coletiva, havia concluído que um cadáver encontrado não muito longe do então Estádio Fonte Nova há quase 20 anos pertencia de fato à Caetano Veloso; mas poucos haviam acreditado nessa história, e entre quatro paredes todos murmuravam que isso mais parecia uma tentativa do Partido de jogar a situação toda para debaixo do tapete.
O resultado disso tudo era que tudo permanecia tão nebuloso quanto antes; ninguém sabia que fim tinha levado Caetano Veloso. A possibilidade mais provável talvez fosse, afinal, a de ele ter ascendido aos céus, sendo bom demais para esse povo pecador.
Um livro como esse- um livro que prometesse respostas, ainda que imaginárias - cairia como uma bomba na cena literária. Pelo menos, era isso que o título indicava. Quanto ao resto do material, ela teria que procurar nas entranhas do manuscrito.
Olhou para a sua bolsa, largada em um canto da mesa; de dentro dela, saía uma borda do manuscrito de Umberto Eco.

Respirando fundo, pôs a bolsa no chão e iniciou a leitura do romance. D’Este apenas olhava, sorrindo detrás do bigode.

Sobre Genocídio e Facebook

Os Guarani-Kaiowás nunca foram tão numerosos. O povo que virou notícia no Brasil inteiro ano passado por estar à beira de extinção, com menos de uma centena de membros sobreviventes prontos à cometer suicídio coletivo em protesto contra o descaso do governo federal e o avanço do agronegócio sobre as terras de um povo ancestral, parece ter alcançado uma vitória em sua batalha.
Hoje, pouco menos de um ano após caírem na boca do povo- ou de um certo segmento do povo- os Guarani-Kaiowás são milhares. Dezenas de milhares. Ao que parece, escaparam do genocídio.
Escaparam do genocídio, entenda, porque esses Índios que apareceram nos últimos 9 meses moram em ocas de concreto em tribos com outros milhões de Índios. Estão bastante seguros em casa, na Internet, longe de conflitos armados ou de disputas de posse de terra. Muitos tem sobrenome alemão, mas você nunca descobriria isso pelo seus perfis de Facebook. Não, lá o nome que eles orgulhosamente ostentam é um só (ou seriam dois? Bah, nome composto.): Guarani-Kaiowá.
Entenda, eu não tenho nada contra o ativismo de Internet (não atire a primeira pedra se tem telhado de vidro, certo?); Eu acho a Internet uma boa ferramenta para reunir as pessoas que se interessam por causas semelhantes, para que, juntas, elas encontrem uma voz que não tinham quando estavam separadas, e assim possam apresentar suas demandas à sociedade. Na verdade, eu mesmo já entrei em altos bate-bocas com integrantes mais experientes e mais barbados de movimentos sociais que discordavam de mim quando eu dizia o quão boa a Internet poderia ser para organizar a população.
Dito isso, acho que poucas formas de mobilização são tão frívolas quanto a demonstrada por esses Índios 2.0. Quase imagino o que está se passando nos corredores do poder:
No saguão do Comitê do Meio-Ambiente, Blairo Maggi senta-se em seu trono feito de motosserras, e olha pensativo para o horizonte vermelho e desértico de Brasília. Ao longe, um vulcão solta labaredas púrpuras, enquanto uma nuvem negra cospe raios sobre a árida planície. 
Os portões negros do salão se abrem e entra um mensageiro, um homem trajando um longo robe negro e um capuz.
-Ah, meu pérfido lacaio! Quais são as novidades do front?- gargalha Blairo Maggi, acariciando sua voluminosa pança com uma mão peluda enfeitada por anéis de metal negro em cada dedo.
-Senhor... sofremos uma derrota... o movimento ambientalista avança contra nossas tropas!- murmura o Mensageiro, atirando-se ao chão, beijando o solo do saguão onde seu mestre pisava.
-Hm... mas que tipo de derrota? O que eles estão fazendo dessa vez?- diz o Presidente do Comitê, o seu rosto escamoso preguiçosamente pousado sobre uma de suas garras. -Conseguiram fazer com que o Congresso aprove um Código Ambiental mais respeitoso do Meio-Ambiente? Fizeram o Governo Brasileiro fixar novas metas de redução de emissões? 
-Pior, majestade- soluça o mensageiro. -Eles todos trocaram o nome para Guarani Kaiowá no Facebook!
Blairo Maggi repousou sua garra peluda no braço de seu trono, e, com um olhar abatido mesmo levando em conta suas pupilas de cobra vermelhas como sangue, levantou-se e lamentou:
-Não há mais jeito. Morloch, chame uma coletiva de imprensa. Estarei renunciando ao cargo hoje mesmo. Nosso reinado de mal, crueldade, malvadeza e maldade com as pobres árvores chegou ao fim.
E uma nova era começou na Terra-Méd... digo, Brasília.
Acho que vocês entendem o que eu quero dizer, não? Mudar de nome no facebook é literalmente a forma de protesto mais preguiçosa que existe no Mundo. Ok, Gandhi também ficava sentado, mas isso não vem ao caso. Governante nenhum fica assustado com mobilização de Internet. É na rua que o pau come. 
Pense um pouco na bizarrice da situação.
-"Ó, que dó! Um povo está sofrendo um genocídio! Vamos mudar o nosso nome no Facebook para todos saberem que nós nos importamos!
-É, legal! Mas e aí, o que fazemos depois?
-Como assim?
-Quando tivermos a atenção da mídia por causa do nosso nome indígena, o que faremos com nossa atenção?
-...
-...
-Maratona de Game of Thrones?
-Maratona de Game of Thrones."
Parece um plano deixado pela metade. Se assim que eles tivessem conquistado vários apoiadores- como sem dúvida é demonstrado pela mudança de nome, o que teria sido útil na hora de filtrar e contatar os interessados em levar o movimento ao próximo nível- o movimento tivesse montado um verdadeiro plano de ação, ido às ruas, talvez até enviado algum apoio material aos próprios Guarani-Kaiowás, toda essa maquiagem cibernética teria valido a pena.
Ao invés disso, os verdadeiros Guaranis-Kaiowás continuam padecendo no inferno verde que recua ante o fogo e o fuzil. Os Guarani-Kaiowás- os de mentira- vão muito bem, obrigado. Me pergunto o que leva essas pessoas à ainda preservar esse nome, sendo que essa causa já foi abandonada por todos faz tempo- uma triste ilustração da obsessão da nossa juventude neo-ativista com causas pontuais, que causam uma histeria temporária e levam uma pessoa à tomar todo tipo de atitude idiota- como mudar seu nome no Facebook. Depois de alguns meses, as causas desincham como um balão e não se ouve mais falar delas; O ativismo em grande parte, pelo visto, se converteu em uma série de modinhas temporárias.. Ao invés de Tamagotchi, Salve Os Índios. A-hã.
Como uma última reflexão sobre esse tema, fica aqui uma letra de um de nossos grandes mestres da música popular, que, acredito, descreve a situação atual:



"Quem me dera ao menos uma vez

Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado"

Mas ei, mudar de nome não prejudica a causa, né? É verdade, mas também não ajuda em porra nenhuma.

Franco Alencastro, segundo histórias de família, provavelmente tem sangue indígena.

Música da Semana: Legião Urbana - Índios

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Eu Matei Caetano Veloso - Parte 5


Capítulo 4


Apenas uma coisa poderia me fazer sentir melhor naquele momento: uma brisa suave, batendo no meu rosto e me fazendo esquecer do calor que ficava concentrado no meu capacete.
É claro, o calor equatorial de Fortaleza era tão poderoso que mantinha o vento como refém, impedindo o de circular. O ar lá era úmido, grudento. Ensebava a pele.
Eu passara um mês na Amazônia, durante o verão, e ainda por cima um verão especialmente quente; e ainda parecia impossível se acostumar com esse clima, sem dúvida mais ameno que o de lá. O calor massacrava nossas nucas, inundava nossos uniformes de suor, e, com os capacetes forrados que usávamos, acredito que também não fossem uma influência muito positiva para nossa saúde mental. Chegando nos arredores da cidade à bordo de um jipe, pensei ter visto, na beira da estrada, uma fazenda grande e plana, porém miserável e amarelada, seca e morta. Mas não era isso a verdadeira singularidade dessa fazenda, não senhor. Interessante mesmo é o que havia dentro de seus muros: Centenas de homens nus e de quatro, pastando na grama esparsa.
Talvez eu esteja mesmo precisando de ajuda.

*****


Havíamos chegado à um porto seguro, mas, fora dele, a guerra continuava. Pelo menos era o que me dizia o Coronel Sutherland, com suas sobrancelhas grossas de taturana transparecendo por debaixo dos óculos escuros de aviador. Como ele falava! Quando me passava a palavra, era sempre para fazer um pergunta. Era um tipo bem patriótico, provavelmente havia lutado na Segunda Guerra Mundial. Perguntou-me muito sobre a minha família, e se eles estavam orgulhosos do que estava fazendo pelo meu país. Respondi apenas que meu irmão caíra de cabeça no trabalho e minha mãe morrera, então a única pessoa que poderia se interessar no meu trabalho era meu pai. Isso também era uma mentira. Meu pai caíra em desgraça desde o assassinato de minha mãe e compensava a sensação de impotência com bebida. Também preferia Johnny à mim, já que seu emprego envolvia capturar malfeitores de todos os tipos nas ruas de nossa cidade, Detroit. Era sua cruzada pessoal contra os culpados do assassinato de mamãe, jamais pegos, e que ele havia projetado sobre Johnny. Um homem muito charmoso.
Menti para o Coronel apenas para que ele acreditasse que não estava zombando dele. Duas pessoas desinteressadas pelo futuro do país na mesma família ainda estava valendo, mas três? Quem eu achava que era afinal?
Era só eu terminar uma frase que Sutherland desatinava à falar. E continuou falando e falando sobre a importância de servir a América, e, usando uma metáfora que, eu tenho certeza, ele havia passado um bocado de tempo formulando e por isso havia precisado encher tanta lingüiça, avisou-me que meu pai deveria mesmo ter orgulho de mim, já que ao passo que meu irmão tornava a América segura para os “verdadeiros americanos”, eu estava tornando o mundo seguro para a Humanidade. “Nós somos a polícia do mundo”, ele chegou à dizer. “O comunismo é um crime, e nós estamos trabalhando para solucioná-lo.” Era uma analogia interessante. Mas não mais interessante do que veio depois, isso é certo. Após talvez quarenta minutos exaltando as virtudes de nossa nação, Sutherland finalmente passou para uma conversa mais prática, dizendo que, além de minha evidente bravura na defesa de nosso posto de observação, havia outra coisa que não podia ser negada: o fato de que, apesar de nosso valor, coragem, intrepidez e de estarmos indubitavelmente do lado certo da história, estávamos sendo forçados à recuar em todas as frentes. Nosso exército estava ganhando todas as batalhas, destruindo todos os acampamentos da Frente Nacionalista Brasileira, capturando suas armas pesadas e distribuindo as leves a nossos aliados. E ainda assim, faltava algo. Mesmo após a nossa grande retirada da Amazônia, os ataques prosseguiram, e na verdade, ficaram mais fortes do que nunca: aparentemente, o ataque ao nosso posto avançado havia sido apenas uma diminuta parte de uma ofensiva que havia se iniciado por todo o Brasil interior, com direção ao litoral, este ainda em nossas mãos. O plano original, de nos mandar em uma retirada estratégica para que iniciássemos uma ofensiva com o objetivo de recuperar contato terrestre com Brasília agora não era mais realista. Ao invés disso, assumiríamos uma posição defensiva na costa. À essa altura, acreditava que seria mandado para Natal. Era um dos portos mais importantes da Região Nordeste, e, se caísse nas mãos dos comunas, o Ceará ficaria isolado do resto do território sob nosso controle. Foi por isso que me surpreendi quando ele disse “Salvador”.
Salvador?
-“Sim, Salvador”- ele disse, com uma expressão séria.
Não sabia muito sobre Salvador. Tinha algumas noções básicas, que pegava com meus subordinados. A primeira, que era uma cidade grande, o que se podia deduzir pelo fato que além de Natal, a cidade na qual a maior quantidade de tropas dizia ter desembarcado era Salvador. Outras noções importantes eram a comida apimentada e com uma tendência à dar dores de barriga, e as mulheres fogosas e belas, de pele negra. Por esses relatos imaginava que não seria muito diferente de Nova Orléans.
O capitão Leslie “Bubba” Burns era um grande admirador das mulheres de lá e dizia ter tirado a sorte grande com 4. Ele sempre contava essas histórias com grande detalhe e um jeito fascinante de deixá-las muito mais interessantes do que realmente eram, coisa da qual eu não sou capaz. Grande cara, esse Bubba. Hoje, seu intestino está em algum lugar do Rio Xingu.
Segundo o Coronel, devia ir para lá pois as coisas estavam especialmente complicadas. Grupos estranhos rondavam os arredores da cidade e a Represa Ipitanga I, e três atentados mal-sucedidos haviam ocorrido lá desde Setembro passado. Havia também um tipo de guerra urbana entre nossos aliados cristãos e uma guerrilha comunista ainda não identificada.
Foi aí que Sutherland disse que eu iria por mar, pois por terra seria muito perigoso.
O destino soube escolher o momento certo para maximizar a ironia, pois, nesse momento, nós ouvimos um barulho. Era uma explosão. E depois outra. E mais uma. Era uma série de explosões, ininterrupta, sem data para parar, deixando apenas um breve momento para a hesitação entre cada barulho, antes de demolir essa hesitação com mais uma explosão.
Sem me importar muito mais com o que Sutherland estava dizendo, corri para a porta. Ele parece ter entendido que compreender o que estava acontecendo também era parte de seu trabalho, porque eu ouvi seus passos pesados e cansados atrás de mim.
O ambiente lá fora traía os barulhos que havíamos ouvido. O céu continuava de um azul resplandecente, e o sol, brilhando como nunca, começava uma leve descida para o oeste. As ruas, ainda que esburacadas e mal cuidadas, tinham a aparência bucólica de uma cidade pequena, assim como as casas e lojinhas à nossa volta. Porém, bastava virar a esquina para entender o que havia acontecido.
O escritório de Sutherland ficava à um quarteirão do porto, onde, no dia seguinte, eu embarcaria rumo à Salvador. Ao invés disso, o que se via à um quarteirão do escritório de Sutherland era uma gigantesca fogueira.
O porto era modesto, mas mesmo essa modéstia havia sido arrasada. Alguns poucos guindastes instalados pelo Exército jaziam caídos no mar. O orgulhoso pátio de concreto que se avançava sobre o oceano estava agora repleto de buracos, e seus contêineres eram estruturas retorcidas e chamuscadas, longe dos blocos sérios e rígidos de apenas cinco minutos antes.
Eu tinha que ser rápido para ajudar quem quer que tivesse se machucado-e com certeza, eram muitos- mas uma visão me perturbou. Era uma van, pintada com uma meia-dúzia de cores diferentes e vários sinais que eu vira pela última vez em um livro sobre religiões orientais que eu pegara emprestado na biblioteca municipal. A porta da van estava aberta, e, sentados no chão dela, os pés apoiados no chão, estavam eles. Dois daqueles cabeludos, um homem e uma mulher- ou seriam duas mulheres? Dava para ver um terceiro no fundo. Saía fumaça da van, mas meu instinto e a capacidade de raciocínio simples me avisava que não era um incêndio.
Meu pai tinha um ódio profundo desses jovens, que eu não qualifico de irracional simplesmente porque consigo entendê-lo. Para ele, eram crianças ricas que gostavam de gastar seu tempo fumando, bebendo, cantarolando coisas boiolas sobre amor livre e a paz na terra. Segundo meu pai eram também especialistas em zombar de pessoas decentes, trabalhadoras e proletárias- como a nossa família. Em suma, representavam tudo que tinha de errado com o mundo.
Eu me tratei de afastar aqueles pensamentos e voltar ao trabalho.
Porque tinha me tornado soldado, afinal de contas? Virar policial teria comprado o amor de meu pai, como Johnny havia feito. Talvez ter dois filhos tentando fazer voltar atrás o relógio e trazer de volta a mamãe através da captura ou morte de dezenas de ladrõezinhos comuns, traficantes de drogas e estupradores teria alegrado o meu pai da maneira que um filho fazendo tudo isso não podia. Quem sabe assim, ele teria visto mais na vida do que uma mera sequência de decepções e, com menos mágoas para afogar, teria largado a bebida, o que o faria recuperar o emprego na fábrica. Seríamos afinal, uma família feliz, e tudo que precisava ter feito era virar policial.
Ah, é claro, tem a lei da conscrição, o que faz com que tivesse que entrar no Exército de qualquer maneira. É, porque sonhar com essas besteiras, o que poderia ter ocorrido, as conseqüências de pequenas mudanças no passado e tudo mais? É uma perda de tempo.
Deve ser a droga do sol.