segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Poesia, yay!

Aqui vai uns versos simples, que não fiz de coração, e sim em um momento de tédio absoluto, mais conhecido mundo afora pelo nome "aula de filosofia."

Acarajé em Caracas

Veni, Vidi, Vice
Caminha, onde o Pero Vaz?
Assim Carminha a honestidade
Oneguin negava o gênio,
e o negão negava a realidade.

Neguei? Negue-me more
Gimme o Guinle ou gimme death
Nega Fulô, furou o tabefe
Negou-se o gay a guiar o menor

Soube tudo? Soube sim
o tudo foi e o nada ficou
sobe mais, sobe pra mim
soube o sábio e o Haoussa ensebou.

Quiça? Será o sabiá
mais sábio que esse bar?
Será o sabará de Saquarema
quaresma mais rica que a banda de Ipanema?

Soco, só. Sarau na areia
Saco será se o soul levar
Sublevando a sereia, dá ré e revolta
A rota à volta, e volta o mar.

Filisteus! Teo, teu Deus,
Verá que os filhos teus
não fogem à puta.
Sou Deus, sou Teo, sou Teo-ria,
Ria, dependente, preso em tua gruta.

A massa é calórica,
O papa é Popper
E o Karl? É caro, o calo
e é ralo o texto?
É o segundo, quarto, quinto ou sexto?

Franco Alencastro, apesar das críticas, vai continuar com esse cartão de apresentação à lá Agamenon.

 

domingo, 11 de novembro de 2012

Sobre os Índios pobres.

Eu vou começar esse texto, descarregando já a afirmação mais polêmica que ele contém: Não existe pobreza.

...

Tenha certeza de que digeriu isso por um segundo. Essa foi a pequena entrada, e é muito importante para criar o gosto para o prato principal, esse é o resto do texto. E não, não é apenas uma cópia da manobra espúria que eu usei no texto Democratização do Abraço. Lembra daquele texto? É, exato, aquele em que eu NÃO falei da Democratização do Abraço.
Já estou antevendo as críticas, e vou escrever elas aqui, como faço tradicionalmente: 
Não existe pobreza? Ah, claro, é fácil pra você que vive no bairro mais rico do Rio de Janeiro e escreve com comodidade num computador chique que seu papai comprou com o dinheiro que ele tem em paraísos fiscais, sem passar fome ou frio. Queria ver você, uh, andar 200 metros e ir viver na Cruzada São Sebastião! Aí você ia ver o que é pobreza!
Bom, sobre essas críticas, tenho dois comentários à fazer: Primeiro, bom, de fato, eu nunca estive em uma favela. Mas eu vivo no Rio de Janeiro, po! Você não pode andar 100 metros sem ver pobreza, mesmo nas partes mais ricas da cidade, e é lá onde os moradores de rua realmente fazem sentir sua presença, por destoar tanto do ambiente que os cerca. Segundo, se você realmente sabe que eu vivo à 200 metros da Cruzada São Sebastião, pare de me stalkear, seu estranho, porque eu nunca disse isso aqui.¹
Bom, agora que passamos por essa etapa, vou explicar melhor a minha afirmação. Mais especificamente, vou explicá-la com uma pergunta: Os índios são pobres?
Pergunta difícil de responder, não? Provavelmente nunca pensou nisso, até porque não é uma coisa que normalmente nos perguntemos, um pouco como "Será que um cachorro fica bem de tutu?", uma pergunta que só faz sentido se você vive perto de uma abundância de tutus e de cachorros.
Mas vamos ilustrá-la com uma comparação. Vamos pegar um índio da floresta amazônica, isolado, daqueles que atiraram flecha no helicóptero que os filmava, e compará-los com alguns moradores da Favela da Maré, e com, sei lá, Christiane Torloni.

 Hoje é dia de comparação, bebê!
À partir daí, já dá pra responder a pergunta, pelo menos em termos relativos. Christiane Torloni é mais rica que os moradores da comunidade? Sim, possivelmente mais do que centenas deles juntos. Christiane Torloni é mais rica que os Índios? Provavelmente não.
Mas como assim? Se pensarmos bem, os índios estão em situação pior do que os favelados- os favelados até conseguem ter roupas, os índios nem isso. Os favelados tem acesso à comodidades modernas como televisores, rádios, e até os malditos celulares que eles fazem questão de usar para ouvir música no ônibus. Em comparação, os índios não podem nem ver a tinta secar, porque eles não tem tinta.²
Mas essa é a questão: ponha os índios em um cenário urbano, e eles viram os mais miseráveis dos miseráveis. Andado por aí pelados, sem trabalho, vivendo de caçar esquilos no Jardim Botânico. Ok, talvez não, mas seria hilário.
O caso dos índios é especial porque é um grupo que se desenvolveu praticamente isolado de todos os outros, e assim, eles estão o mais longe o possível de elementos de comparação. Enquanto isso, os moradores da favela da Maré provavelmente vivem bem perto de Christiane Torloni(ou sei lá, não sei onde ela mora, ao contrário de você, que sabe até onde eu moro.), o que faz com que comparem à si mesmos com alguém muito mais rico. Assim, é minha tese de que a pobreza é algo quase totalmente relativo.
É claro que essa lógica tem limites. Ao contrário da posse de smartphones, a fome, o frio e as doenças não podem ser relativizados. Só é possível falar de pobreza relativa à partir de um certo nível- na verdade, os estudos pioneiros sobre o efeito da renda na felicidade parecem demonstrar exatamente isso, não só confirmando o velho adágio de que o dinheiro não traz felicidade, mas que o bem-estar humano se estabiliza após a renda chegar á um certo nível, o que mostra que existe um nível de pobreza absoluta. 
Assim, se você também estava fazendo a pergunta "Ah é, mas e que tal comparar os favelados com os africanos, que passam fone, sofrem de AIDS e vivem em zonas de guerra", a resposta é que, obviamente, os africanos vivem pior que os brasileiros pobres, mas isso não compromete o resto do raciocínio. O que importa, no fim das contas, é o que sempre suspeitamos- saúde, estabilidade, paz, três refeições ao dia, e, especialmente, igualdade. A grande pergunta é- nesses tempos em que se fala cada vez mais em privilegiar a produtividade, a competitividade, e as altas taxas de crescimento, não seria mais fácil pegar o que já temos e garantir mais para todos?

Franco Alencastro é mais um que achou que a Christiane Torloni estava bem gata naquela foto.
 
¹Bom, acabei de dizer.
²Eles podem, contudo, ver a grama crescer.
 



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Novela, Altinha e Revolução no Calçadão

     A batalha continua. Se bem que, quando ela começou? Um dia vai terminar? Sendo assim, a batalha é uma constante. E, sendo uma batalha, cada pequeno instante conta, cada momento é uma ação que constitui um elemento da vitória final. 
Parafraseio Mao Tsé Tung nesse início de texto(só que não) para conter algo que aconteceu comigo no Domingo. Não Domingo passado, ou no próximo. Nem nos anteriores. Na verdade, foi em um Domingo antigo, parecido com muitos outros. O que o torna diferente é o que faz com que eu esteja escrevendo sobre ele no momento.
Andando na Avenida Vieira Souto, à beira do mar, percebi que havia algo de diferente no ar. Uma certa vivacidade, como se o mundo estivesse girando mais rápido, e o eixo ficasse precisamente ali. Ah, a quantidade boçal de policiais também me ajudou à perceber que havia algo errado.
De fato, a linha de prédios marmoreados reunidos em frente ao Oceano Atlântico estava protegida por umas três dúzias de policiais, conversando jocosamente entre si, ocasionalmente fazendo cara de mau.
No outro canto, uma quantidade não menos considerável de repórteres, com suas câmeras grandes e espalhafatosas, emblemas de canais públicos e infames coletes pretos.
No meio, nada. Espera, nada? É, nada. Pelo menos, por enquanto.
O vácuo foi temporariamente preenchido pelo que pareciam ser estudantes secundaristas, aproveitando o Domingo. Me refiro não à variante praiana e hippie-chic, menos ainda à variante de seres da noite idólatras de Louis Garrel, e sim de um subgrupo frequentemente desprezado, o dos manos. Tentarei ser o mais gentil possível na caracterização desse grupo, mas alguns clichês, como a idolatria à uma planta supostamente descoberta hà 5 mil anos, são inescapáveis.
Especificamente, vários deles usavam bonés do Cone Crew Diretoria. Swag.
Me aproximando mais, vi desenhadas na mochila de uma garota, com marcas de caneta que provavelmente não foi feita para escrever em tecido, o nome de várias bandas gringas conhecidas, como System of a Down, Alice in Chains, Nirvana, e todos os simpáticos e saltitantes suicidas de Seattle. O fraco que tenho por moçoilas com um gosto musical apurado(leia-se parecido com o meu) me levou à tentar puxar papo.
-Caraca, vocês sabem o que tá acontecendo aqui?!?- ela perguntou à seus outros camaradas caricaturescos, ao que eu, subitamente entrando na conversa, respondi "Claro, estão gravando o último episódio de Avenida Brasil".
Parece um jeito tosco de revelar um detalhe importante dessa pequena trama, mas sejamos francos, à essa altura você só quer que eu desembuche. E era isso mesmo. Mas eu errei em minha suposição de que aqueles repórteres estavam lá para cobrir as últimas diabruras da Carminha. Na verdade, tudo não se tratava de uma bizarra coincidência.
Lá no fundo, entre os repórteres, estavam duas eminências pardas. Usavam um rosto pálido, com bigode negro sólido, bochechas rosadas e um sorriso congelado de porcelana. Os dois eram exatamente iguais. Eram anônimos, e eram Anonymous, aquela figura deveras onipresente.
Depois de me introduzir, à maneira de um dos velhos filmes sobre agentes duplos, entre os fãs de Cone Crew e a mini-Courtney Love perdida em um paraíso tropical, decidi ver o que os meus irmãos de combate tinhamá dizer sobre tudo aquilo. Fui seguido por Courtney e por sua amiga, Proserpina¹, que trajava com orgulho um boné do já mencionado grupo de rap de-um-sucesso-só e brandia para todos os lados perguntas sobre a tal da erva, tudo isso enquanto se agarrava em meu braço como se o mundo fosse acabar, tendo me conhecido à menos de cinco minutos.
Os dois outsiders de fato estavam cada vez menos ameaçadores e cada vez mais incomodados pelas perguntas de minhas novas e improváveis amizades(é incrível como eles fazem amigos rápido, na verdade). Tentavam manter uma aura de mistério e respondiam à perguntas com respostas vagas. Eis aqui um diálogo típico daquele momento:
Proserpina: Po, mas quem é você?
Anonymous: Eu sou todos.
Eu: Não cara, você é os 99%.
Anonymous: Isso também.
Proserpina: Tira a máscara para eu ver seu rosto! (Será que ele é bonito?)
Anonymous: Po, não.
Proserpina: Mas então me diz quem é você!
Anonymous: Eu sou todos.

Ad infinitum. 

 Proserpina, de fato, agia como uma criança de 4 anos que havia usado um supositório cheio de cafeína, com uma boa dose de DDA no meio. Perguntava aos pobres Anonymous se eles pretendiam legalizar a maconha nos territórios que conquistassem, e, na verdade, confundiu-os com o personagem V, do filme... bom, à essa altura vocês já sabem qual.²
Não demorou muito para arrancarmos deles o motivo de sua presença. Estavam lá para protestar contra a violência da polícia contra os banhistas- ou à favor da violência dos banhistas contra a polícia, dependendo da visão que você adotar- no que ficou conhecido como A Batalha de Ipanema, pelo menos entre o(bastante reduzido) círculo em que essa informação circulou. E como iriam protestar? Simples, realizando A maior altinha do mundo. 
Mas, pera, como isso iria funcionar? Como mais de 500 pessoas passariam a bola entre si? Passariam para os vizinhos? As pessoas nas outras pontas ficariam esperando numa fila? Haveria tíquetes? Racionamento de embaixadinhas? A resposta à essas perguntas permanecerá um mistério, pois nunca pude perguntar à ninguém sobre a realização da altinha, e porque, na verdade, pelo menos em teoria, ela estava acontecendo naquele exato momento.
A extensão da importância capital daquele momento e a sinificância da convergência de espaço e tempo demoraram para me atingir, mas chegaram como um chute de altinha mal mandado. Do tipo que te acerta na cabeça. Nossa, que metáfora rasteira. Mais rasteira que carrinho em futebol.
A Avenida mais rica do Rio de Janeiro, onde estava sendo gravada o capítulo final da novela que parou o país, acontecendo ao mesmo tempo que um protesto fomentado pela internet e apoiado pelo grupo que estava parando o mundo, em uma seção da praia frequentada por artistas e, aparentemente, partículas de Swag ambulante. Verdadeiramente, um microcosmo do Brasil, e, porque não, do Ocidente. Me senti no centro dos acontecimentos, no centro do mundo, dessa bola de futebol que roda na imensidão do espaço, no centro desse Globo e de sua intrincada rede de informação que pareceu simplificar-se e achatar-se por um momento.
Só teve um problema: a multidão não apareceu. O povo sumiu. E agora, José?
De fato, no protesto apareceram apenas os dois Anonymous, vestidos à caráter com seus casacos anarquistas de grife e máscaras elaboradas. A tristeza dessa realidade logo me atingiu, e pouparei vocês da metáfora da bola dessa vez.
Os repórteres não estavam lá por Carminha.³ Estavam lá pelo protesto. Os policiais não estavam lá para proteger a Carminha do assédio dos repórteres. Estavam lá para conter o protesto. E o que a chama mobilizadora da internet, a fúria de mil manifestantes virtuais sem rosto, prontos para explodir o edifício da poderosa mídia e tudo que ela sustenta, o que essa galera do mal entregou à polícia e à mídia que dela tanto esperavam? 
Dois manifestantes. 
Parece paródia, mas é a triste realidade. Nesses tempos de ultra exposição dos movimentos de protesto na mídia tradicional, temos 10 repórteres, 30 policiais e 2 manifestantes. Nunca o desequilíbrio de forças na atual luta contra "o sistema" e a sua própria incorporação, em tempo recorde, pelo sistema, foi tão bem representada. Mais uma vez, a Avenida Vieira Souto se tornara um microcosmo do Ocidente, porém não da maneira que eu desejava.
O "protesto" não demorou à acabar. Os policiais foram embora logo, percebendo que talvez tivessem se precavido demais. Courtney, apaixonada pelo Anonymous(o que uma máscara não faz) imitava sua amiga e fazia perguntas, enquanto Proserpina ganhou nova vida ao lado dos repórteres, que tiraram fotos suas andando de skate, e eu discutia os rumos do movimento com o outro Anonymous. Rapidamente me sentindo sem propósito, caminhei para o horizonte sem me despedir de nenhum de meus novos conhecidos, como frequentemente faço em situações como essa, e, voltando para casa, observei o sol enquanto ele se punha sobre aquela pequena e irrelevante parte do mundo.

Franco Alencastro faz parte do 1% que ainda acredita nos 99%.

¹not an actual name.
³ ainda estivessem lá pela Nina; e é só isso que direi sobre o assunto. Fica difícil falar sobre o quão a Débora Falabella me remete à um ideal de beleza clássico e ainda assim reformado para a contemporaneidade, sem parecer o McLovin.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Guia Politicamente Incorreto dos Guias Politicamente Incorretos

O mercado editorial Brasileiro, no qual eu muitas vezes tentei entrar pela porta da frente(sem sucesso) vive hoje uma praga. Ela vem na forma de uma meia-dúzia de homens na casa dos 30 e tantos anos, brancos, estudados e de classe-média, que, por motivos diversos, acham que o mundo está sendo gentil demais com quem não é branco, homem, estudado e de classe-média. Estou falando da histriônica trupe de autores que publica os autoproclamados "Guias Politicamente Incorretos".
São vários: o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina, o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia... todos sucessos editoriais, e todos com grau variado de exatidão e uso de fontes.
Vou admitir, eu até que me empolguei com o lançamento do primeiro livro- o mega-sucesso "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", em 2009. Como estudante do ensino-médio, vivia o auge do meu ódio contra as políticas redistributivas e de "correção de erros históricos", que definitivamente estavam aí para roubar a minha suada vaga na faculdade, para a qual eu trabalhara com afinco desde nascer. Tá, desde nascer não, mas a ideia é a mesma. O Guia, assim, surgiu como um sopro de ar fresco na hora certa, desmistificando aquilo que eu aprendera no colégio. O "Guia" era mais que um livro de história. Era irreverente, inteligente, fazia você pensar e era, à sua maneira, subversivo. 
Durou pouco. Não é preciso um especialista para ver que a proposta do Guia- a de derrubar o establishment esquerdista que domina a cultura e em particular a produção histórica, à partir de exemplos que refutem a sua versão da história- tem falhas profundas. Desde a primeira vez que eu li o livro, uma coisa me incomodou- e olha que naquela época, eu nem sabia do debate entre empiristas e racionalistas. O autor, o jornalista curitibano da Veja Leandro Narloch, tinha uma preferência por apresentar exemplos pesquisados à fundo, que derrubavam 'mitos históricos'(por exemplo, apresentando o caso de um ex-escravo que era dono de escravos, para acabar com o mito de que só brancos tinham escravos). O problema óbvio com isso é que alguns exemplos dificilmente configuram uma refutação de um fato muito maior, apoiado numa quantidade mil vezes maior de exemplos.
Mas isso foi apenas o primeiro de meus problemas com o Guia. O problema principal era que, longe de tentar contar uma versão diferente da propagada pela esquerda acadêmica, que primasse pelo rigor científico, Narloch se deixou infectar pelas suas próprias influências ideológicas e escreveu pouco mais que um panfleto. Para além do humor e da óbvia característica anedótica do livro, ele tinha um certo ranço direitista, mas que eu deixei passar, em meu maravilhamento. 
Já na sequência, o "América Latina", Narloch virou uma paródia de si mesmo, adotando as mais ululantes teses da direita paranóica, como a de que Salvador Allende ia dar um golpe para se perpetuar no poder, e foi impedido pelo salvador da pátria e amigo das crianças, Augusto Pinochet. Se antes, ele tinha como objetivo desmistificar a história, agora estava criando uma nova mística, baseada em teorias de conspiração tiradas da internet.
Digam o que quiserem sobre a tal parcialidade da análise esquerdista da história, mas uma coisa é óbvia: um livro como As Veias Abertas da América Latina tem como propósito desmistificar uma história ainda mais tradicional, sim, aquela contada nos decrépitos livros didaticos dos nossos avós, com uma ortografia engraçada. Nesses livros, as crianças aprendiam tudo sobre os conquistadores, e nada sobre os conquistados. Ouviam a versão dos europeus, e nada sabiam dos índios, ou porque, afinal de contas, sobravam tão poucos para contar a história. O papel da esquerda na história sempre foi o de trazer de volta ao centro um debate que já nasceu parcial- e torná-lo, assim, mais próximo da realidade da população.
Já o livro de Narloch serve que propósito? Tá, talvez o de desconstruir, mas desconstruir a estrutura sem substituí-la por nada, ou só por piadinhas e anedotas, é meio tenso.
Entrar na faculdade, eu pensava, me botaria em contato com a tal elite acadêmica, esquerdista e arrogante que Narloch descreve. Ao invés disso, o contrário ocorreu. Entrar na PUC-Rio me pôs em contato com o maior centro de produção de conhecimento declaradamente conservador do Rio de Janeiro, quem sabe do Brasil. Claro, havia alguns esquerdistas, da variedade que fuma maconha com os pais hippies e frequenta os shows da Fundição Progresso. Mas é só. A maioria, incluindo uma parte significativa dos jovens, era composta por neoliberais ranzinzas. Então, onde está a tal dominação esquerdista que Narloch descreve? Se ela existir, me digam onde encontrá-la, porque deve ser divertido morar nela. Tenho certeza que a galera lá faz bastante sexo grupal.
A tal da onipresença do politicamente correto é talvez a maior peça já pregada na classe-média brasileira. Na verdade, esquece isso. Ela é cúmplice disso. Criou um fantasma de ameaça esquerdista ao nosso modo de vida, apenas para justificar uma reação ainda mais violenta. A chave do conflito, no final, é a percepção da realidade, e não a realidade em si. Assim, tanto os hippies que tomavam LSD e a sisuda classe média dos anos 60 tinham uma visão igualmente deturpada da realidade. Talvez a droga dos segundos seja a tinta de jornais alarmistas, que penetra nas veias pelas unhas.
Mas estou tergiversando.
Enfim, enquanto a minha convivência na faculdade me permitia chegar à essa compreensão maior, a história dos Guias Politicamente Incorretos seguia o seu curso. Não, pera, curso não, porque curso é teleológico, e teleologia é marxista. Não pode. 
Enfim, é quase injusto comparar o primeiro livro de Narloch à corja de imitadores que surgiu depois, provando mais uma vez que a popularização leva à banalização. Narloch inspirou várias cópias malfeitas de sua obra, quase todas escritas por pensadores conservadores, dos quais o pior é com certeza o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, o livro mais escroto(e eu uso essa palavra mesmo) que eu já tive a desgraça de ler na minha vida. Enquanto Brasil, apesar de suas falhas evidentes, tinha um embasamento documental sólido, com páginas e mais páginas de fontes, Luiz Felipe Pondé, um "intelectual" de décima-quinta categoria, escreveu um livro de pensamentos mirrados e preconceituosos, como o de que as mulheres tem que se submeter aos homens, ou de que a busca pela igualdade enfraquece o homem, o que me lembra muito as ideias de alguém cujo nome não citarei, para não quebrar a Lei de Godwin. 
Finalmente, parece que o próprio Narloch, que eu antes respeitava como historiador, vem descendo mais e mais em uma espiral de reacionarismos que fariam a Opus Dei dizer "calma aí, cara!". Eis aqui um trecho de um post de seu blog:
O terremoto e a calamidade do Haiti fizeram vários “especialistas” no país aparecerem de repente. Nas rádios e canais de notícia, eles dizem o seguinte: o Haiti, apesar de ter sido o primeiro país da América Central a passar por uma revolução e conquistar independência, sofreu embargos e ditaduras apoiadas pelos EUA, o que resultou na miséria que vemos na TV. É o velho esquema “pobre/indefeso”versus “rico/inescrupuloso” que eu critico no Guia. Não conheço bem a história do Haiti, mas desconfio do seguinte: o país deu errado porque a sua elite perdeu. Os homens que conduziriam a massa à civlização foram expulsos ou executados. A justificativa do embargo ou das ditaduras serve para abafar uma verdade dolorosa: o Haiti é o melhor exemplo de que revoluções dão errado. A revolta, a liberdade e a independência acabaram com o país. Se os haitianos continuassem tendo que obedecer as regras impostas por algum país europeu, viveriam muito melhor hoje em dia, talvez como a Republica Dominicana, com quem dividem a ilha de Hispaniola. Ímpetos revolucionários causam tanta tristeza e tantas cenas lamentáveis quanto os piores terremotos.
Aham, Narloch, então você não sabe nada sobre o Haiti, e resolve dar pitaco mesmo assim? Interessante. Fora isso, encontramos vários clichês interessantes, como a de que a elite é a vítima( Realidade chamando Narloch: é mentira. A elite era colonial, e iria embora de qualquer maneira caso a independência ocorresse. O país era quase integralmente formado por escravos), ou a afirmação, que fala por si só, de que o Haiti estaria melhor como colônia. Sim. Em pleno Século XXI, um intelectual respeitado, com relativo apelo popular, nascido em uma ex-colônia, defende o colonialismo. De fato, avançamos pouco desde o grito do Ipiranga, mas eu suspeito que seja por causa de pessoas como Leandro Narloch.

PS: Ah, e já está na hora de acabar com essa moda de capas imitando o Sergeant Pepper's Lonely Heart Club Band. Já está dando para ouvir o John Lennon se revirando no túmulo.

Franco Alencastro não tem o escritório na praia, mas tá sempre na área.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma sugestão simples pra resolver a crise da dívida(sem irritar os tais criadores de riqueza)

É fato que estamos vivendo em uma época complicada. E não, isso não é um pastiche do meu último artigo. Evidentemente, isso vai levar ao corolário da Lei de Poe, que é:
Quando alguém defender a própria opinião depois de fazer uma paródia da opinião do adversário, sempre surgirá um espírito de porco para apontar que a paródia era menos caricata que a opinião real.
Se bem que, pensando bem, talvez isso seja muito específico para ser usado. Droga, nunca vou ganhar nenhum dinheiro com Copyright desse jeito.
 
Enfim, após essa introdução inútil, começemos sem mais delongas o post.

Afinal de contas, qual é a raíz da crise econômica que a Europa atravessa? Essa é uma pergunta importante, já que a solução, acredita-se, passa pela raíz. 
Quem está à esquerda defende que os bancos e suas operações financeiras arriscadas puseram muito dinheiro em jogo e assim levaram à crise, e que portanto só mais regulamentações nas finanças impedirão uma nova crise. À curto prazo, propoem um aumento de impostos para os mais ricos, que, dizem eles, podem pagar pelos próprios estragos.
Quem está à direita defende que, causadores da crise ou não, os bancos não devem ser responsabilizados pela atual crise da dívida- para pagar a tal, seria necessário arrocho salarial e impostos mais altos, recaindo especialmente sobre os menos afortunados.
Eu poderia apontar mil inconsistências na lógica da direita, mas deixarei isso para outro post. O fato é: Brigar não nos levará à lugar nenhum. A solução, aqui especialmente, é a conciliação.
E como isso se traduz em termos práticos? O jeito mais fácil é criando uma solução que agrade à todo mundo. Ora, Franco, não é isso o que os governantes tentam fazer nos últimos três anos? Ora, é claro que não, leitor inexistente. As soluções defendidas até agora foram quase que inteiramente para estimular a oferta, de diversas maneiras. De novo, a falsa equivalência se faz sentir no debate. O mito de que teria havido um estímulo à economia pago pelo Estado em 2009-2010 é apenas isso, um mito. O que houve foi uma pilhagem de patrimônio público sem precedentes na história humana, exceto talvez nas infames enclosures. O risco foi socializado, e o povo pagou a conta. Em um verdadeiro estímulo Keynesiano, os Estados não teriam resgatado bancos enormes que, no fim, não produzem nada, e sim investido em obras públicas para criar empregos e estimular o consumo pelos próprios cidadãos. Ao invés disso, resgataram-se os verdadeiros causadores da crise.
Mas não estamos aqui para falar do que poderia ter sido feito então, e sim do que pode ser feito agora. Os mundos de 2009 e 2012 podem até não parecer, mas são bem diferentes. Em 2009 tínhamos um mercado financeiro em queda livre; agora, os mercados financeiros estão aí, urrando pelo pagamento das dívidas gigantescas que os resgataram.
Assim, a solução para a crise deve ser feita pensando no futuro, e não no passado. E o que tem de mais vanguardista do que pensar com 30 anos de antecedência?
Pois o mundo desenvolvido está ficando velho, minha gente. E com mais velhos, a conta da aposentadoria aumenta, pois ainda por cima, em uma sociedade com a taxa de fertilidade em queda, hà poucos jovens para pagar a conta. E a conta não fecha. Esse é um dos principais argumentos daqueles que defendem a austeridade fiscal e, honestamente, é também o melhor.
É nessas horas que você pensa: Mas e todas aquelas matérias sobre os tais velhinhos que vivem melhor, fazem esporte, levam vidas saudáveis aos 60, 70 anos? Pois é, leitor, eu também, e isso me faz pensar no que pode ser feito. Afinal, se um velhinho pode fazer windsurf aos 75 anos, também pode trabalhar. É duro, mas é verdade. 
Assim, eu proponho aumentar a idade mínima de aposentadoria para 80 anos.
PORRA, Franco! Oitenta anos? Acha que é o que, o Presidente do FMI? Um neoliberal? Um NAZISTA?
Calma lá, nerd tetudo, deixa eu terminar meu raciocínio. É fato que botar a aposentadoria em 80 anos praticamente vai acabar com ela, excetuando-se os seletos velhinhos que vivem muito além disso. Mas a questão é: Você não fica entediado depois de três meses de férias? Agora imagine o tédio desses três meses, estendidos por anos, possivelmente décadas. Pessoalmente, é uma tortura que eu não desejo pra ninguém. 
Eu não sei quanto à você, e posso até estar falando besteira, mas as pessoas que conheço parecem se divertir muito mais em pequenos intervalos de ócio. Afinal, o ócio só é divertido porque é a exceção. Se se torna a norma, vira uma tortura, tão ruim quanto o trabalho.
Então, frente à essa sociedade imaginária em que as pessoas essencialmente trabalham até morrer, qual é minha segunda proposta, agora que os pagamentos de aposentadorias estão neutralizados?
Simples. Diminuir as horas de trabalho. 
A lógica é bem simples. Ao longo de uma vida, trabalhamos X horas. Se estendermos a duração da "vida útil", trabalharemos X+Y horas, mas, se reduzirmos a carga horária de trabalho, de 44 horas semanais(pegando a norma brasileira que, bem ou mal será afetado por isso num futuro não muito distante) para, quem sabe, 34, teremos a mesma produtividade de antes, com pagamentos de segurança social muito menores e uma geração de bem-estar, acredito, bem maior. 
Com essa solução, as pessoas deixarão de passar tanto tempo em cadeiras de balanço pensando em amigos que já morreram e passarão mais tempo com a família enquanto ela ainda é jovem, tirar férias mais longas, conhecer o mundo enquanto ainda tem energia para isso. Inclusive, com a redução de impostos possibilitada pela queda do pagamento de aposentadorias, terão mais dinheiro do que antes, precisando trabalhar menos. 
Uma experiência semelhante foi tentada na França, em 1998. O projeto, cria do premiê socialista Lionel Jospin, reduziu a carga de trabalho semanal de 39 para 35 horas. Nos três anos seguintes(dois, segundo algumas fontes), o impacto estimado pela nova lei foi de criação de 350 mil empregos, o melhor resultado da década de 90 na França, ajudado em parte, é verdade, pela flexibilização das leis salariais, que facilitaram a contratação de pessoas à meio-período para compensar a perda de produtividade à curto prazo.
É mais do que um projeto de justiça social, ou de simples pagamento da dívida. É uma nova forma de organizar a sociedade.
Então, o que estão esperando, burocratas de Bruxelas? Esse projeto está prontinho pra vocês. E eu nem vou cobrar Direitos Autorais.

Franco Alencastro fica um pouco cheio de si, às vezes.

sábado, 20 de outubro de 2012

E, para aqueles que estão se perguntando...

O último post foi, sim, uma paródia. Eu inclusive até peguei bastante pesado para que ficasse bem claro que era uma paródia do comportamento "Classe Média Sofre", uma sátira do sequestro do discurso reformista no Brasil pela direita conservadora, e um pastiche de Jonathan Swift. Também é um comentário sobre o apoio unânime que os supostos especialistas em economia dão ao neoliberalismo, com o aval da grande mídia.
Se você não percebeu nada isso, que Deus tenha piedade de sua alma, porque o sistema de ensino não vai ter. Ou sso, ou isso só mostra como o conservadorismo no Brasil acabou ficando tão exagerado que virou uma caricatura de si próprio, à ponto das pessoas acharem que alguém tenha aquelas opiniões. Bom, muito provavelmente várias pessoas tem- elas só não falam (muito) alto.

Franco Alencastro odeia ter que explicar a piada.

Modesta Proposição para a Resolução dos Problemas do Mundo.

Muita tinta tem sido gasta na palavra "crise." Passamos o dia todo falando de Crise Ambiental, Crise Econômica, Crise de Valores, Crise de Confiança no Governo, Crise! Crise! Crise!
Eu não sei quanto à vocês, mas estou cansado de tantas crises. Cadê aquele sentimento bacana de estabilidade e progresso que nós tínhamos numa época não muito distante dessa? Ele deve ter ido pra algum lugar.
Hoje, eu me dispus à recuperá-lo. Assim, saí em uma jornada de descoberta pessoal, através do consumo indiscriminado do que a mídia mais tradicional, comercial e respeitável diz sobre a resolução dos grandes desafios que se encontram à nossa frente, isso é, quando ela não está ocupada  em transmitir cada passo da Carminha, algo que, felizmente, também ficou pra trás. 
Assim, tendo como base nenhuma reflexão pessoal e uma fé naquilo que o senso comum e as vozes de nossos queridos especialistas aconselham, aqui estão as soluções para os paradigmas atuais da civilização, elaboradas sob a forma de oito modestas proposições para tornar melhor a vida de todos, especialmente os que merecem.

1) Reformular nosso código tributário.
Ninguém pode negar a importância disto! Afinal, o que causou a crise na Europa? Seria a desregulamentação do setor financeiro, levando à uma expansão incontrolável de bancos que faziam apostas arriscadas e davam recompensas bilionárias para os CEOs que, no fim das contas, botaram tudo à perder? 
...Ora, eu tenho cara de quê? Comunista? Quer dizer, é evidente que estamos em tempos difíceis, mas nem por isso devemos ceder à tentação de culpar pela crise atual os membros mais produtivos de nossa sociedade. Afinal, se um trabalhador recebe 1000 R$ por mês e o seu patrão recebe 50 000 R$ por mês, é evidente que é porque o patrão trabalha 50 vezes mais intensamente.
Assim, reformas são necessárias para que se recupere o crescimento econômico, chave da felicidade de nossa nação. Proponho que se eliminem os impostos para aqueles que ganham mais de 1 milhão de reais por mês. Assim, estaremos reconhecendo-os como os membros mais valiosos de nossa sociedade. Afinal, durante muito tempo estes titãs foram esmagados por regulamentações excessivas de caráter socialista que os impediam de contribuir à sociedade com sua genialidade.
É claro, essa estratégia tem limites, e precisamos encontrar uma maneira de fechar as contas do Estado. Sem a receita dos impostos pagos pelos ricos, é provável que os 90% mais pobres da população devam pagar algo como 80% de sua renda em impostos. Mas isso, caro leitor, será positivo! Afinal, se, quanto mais pobre você for, mais impostos pagar, isso se tornará uma incentivo para ficar rico.

2) Acabar com o assistencialismo, criando oportunidades.
Falando nos pobres, é evidente que o assistencialismo excessivo de nosso governo Bolchevo-Socialista cria uma sociedade injusta, em que espertalhões abandonam seus empregos pagando salários na casa de algumas centenas de reais para ficarem em casa, mamando nas tetas do Estado, recebendo uma pequena fortuna   em benefícios governamentais. Tudo uma estratégia para que se perpetue ditatorialmente o tal governo, criando uma massa cativa de eleitores.
A classe produtiva cansou-se disso, e exige que se acabem esses benefícios para que se crie uma cultura empreendedora e trabalhadora nesse país de preguiçosos e miseráveis.
É evidente que, com o aumento de impostos para os pobres, deverão ser criadas oportunidades para os afetados. Desde já, sugiro o resgate do milenar esporte da caça, estabelecendo-se um sistema onde as mães interessadas deixarão suas crianças no cuidado de country clubs situados perto de florestas e outras áreas naturais, onde serão caçadas pelos sócios, junto com outros animais da fauna local. O sistema já está sendo implantado nos EUA.

3) Privatizar!
Indo no mesmo sentido das últimas propostas, é evidente que nosso modelo atual de gestão dividida por empresas e governo não está funcionando. As estatais são ineficientes e geram perdas trilhonárias para o contribuinte e os cidadãos de bem(s). Assim, é preciso demolir o aparato de Estado, privatizando-se o sistema de Saúde, as escolas, as estradas(bom, as que já não são privadas), as florestas, as praias(só assim se acabará com os farofeiros. Quer pegar sol? Fique na laje!) nosso espaço marítimo e o ar. Se o ar de São Paulo, por exemplo, for deixado em concessão à empresas privadas, ele com certeza ficará mais limpo, e todas as pessoas que não puderem pagar... Bom, é só voltar pro Ceará.
É claro, nem tudo é ideologia, e é preciso que os contribuintes ajudem á financiar essas empresas quando elas estiverem em dificuldades. Pela causa do capitalismo.

4) Vigilância constante para uma vida mais segura.
É claro, todas essas modificações súbitas na forma de se administrar o Estado trarão certas insatisfações. No passado, a falta de meios significava que o Estado não tinha como saber quem estava insatisfeito, e essa insatisfação às vezes crescia á ponto de ebulição, resultando em algo que no passado se conhecia como "revolta". Para que se evitem novas "revoltas", que muitas vezes resultam em grandes desrespeitos ao direito sagrado da propriedade , é preciso que o Estado, recuando da área econômica, garanta os direito de seus cidadãos, mantendo uma vigilância constante na área pessoal. Para tanto, recomendo que sejam expandidas as redes de câmeras de supervisão de circuito fechado, muito populares em países civilizados e desenvolvidos, como a Inglaterra. É claro, isso só não é suficiente. As próprias famílias muitas vezes são focos de onde se espalham bobagens anti-sistema. Assim, a expansão das forças de vigilância em patrulha 24-horas pelas cidades também incluirá a contratação de uma pessoa por família, que garantirá que todos no domicílio estejam satisfeitos com as reformas. Durante os três primeiros anos de contratação como "Vigilante Familiar", o uso de um chip especial para reduzir a disparidade entre as ordens recebidas e efetivamente aplicadas será opcional.

5) Reformar a Democracia. 
É impossível ter democracia em um país de tanta desigualdade, afinal as diferenças de classe jogarão as pessoas umas contra as outras, e o analfabetismo endêmico em nosso país impede que as pessoas se informem corretamente da política, escolhendo candidatos que, muitas vezes, não representam seus verdadeiros interesses. Assim, é preciso resgatar os princípios do grande patriarca de nossa independência, José Bonifácio, expressos na Constituição de 1824. Ele sem dúvida ficaria deprimido com todas as modificações que ocorreram desde então, e gostaria que se restaurasse o espírito com o qual essa nação foi orifinalmente fundada- e assim, defenderia a limitação dos votos para mulheres, pessoas de baixa renda, analfabetos e escravos. É claro, não há mais escravidão hoje em dia, mas os descendentes de escravos são facilmente identificáveis pela cor da pele, o que possibilitaria sua exclusão benigna do processo eleitoral. Digo exclusão benigna pois são pessoas que, geralmente, votam pensando em interesses de curto prazo. Se deixarmos a democracia para pessoas imbuídas de verdadeiro espírito cívico e um projeto de nação, esse país poderá chegar ao desenvolvimento. Todas essas reformas inclusive tornarão a democracia um assunto mais agradável, e acabarão com as longas filas nos dias de eleição.

6) Expandir os direitos de propriedade intelectual.
Se você acreditar nos malucos que surgem pela internet, vai pensar que as leis de propriedade intelectual entravam a criação de ideias e novos produtos. Ora, isso é como dizer que o fato da polícia prevenir roubos é algo ruim! O extremo lógico do raciocínio dessas pessoas é o fim dos direitos de propriedade. É claro que 70 anos após a morte não é suficiente como limite para a quantidade de tempo em que um autor deve continuar recebendo. Afinal, a sua redação da escola nunca foi tomada por ninguém, ela é trabalho seu e você mereceu aquele 6,0 medíocre! Por isso, defendo a expansão dos direitos de propriedade intelectual ad infinitum. Assim, se o copyright valer até o dia do Juízo Final, haverá mais incentivo para produzir até lá. 
Além de uma expansão quantitativa dos direitos, deve haver também uma expansão qualitativa. Assim, para financiar a máquina do Estado, serão feitas privatizações de criações do domínio público, como a música da Ciranda Cirandinha, do personagem Saci Pererê, e do patrimônio genético da nação brasileira, rico graças à sua miscigenação, com base na bem-sucedida experiência islandesa. Também serão feitos leilões para a venda de nomes, como Fernando e Carol, que poderão ser alugados aos pais que quiserem dá-los à seus filhos pelos proprietários. A palavra "Saudade", que só existe na nossa língua, poderá trazer um retorno particularmente grande se leiloada.

7) Acabar com o desemprego.
O desemprego é um grande problema no mundo atual. Países como a Espanha chegam á taxas absurdas de 25% de desemprego. O que fazer então?
Podemos começar simplesmente pela proibição do desemprego. Quem ficar desempregado, vai pra cadeia. Simples assim. Isso permitirá à nossa nação evitar a proliferação de pessoas desocupadas, vivendo de ajuda do Estado, de favor ou simplesmente de tocar triângulo no Metrô. Estendendo-se esta proibição para moradores de rua, famosos por espalhar sujeira e serem tão desocupados como os desempregados, teremos ruas mais limpas e pessoas bem-ocupadas.

8) Acabar com os destaques indevidos da suposta "multiculturalidade"
A maioria está cansada de ser oprimida pela minoria. Chega de valorização das culturas afro-descendentes e de "religiões" como a Umbanda em detrimento da fé Católica! Tudo isso advém, no fim das contas, da decisão bizarra de reparar os "erros históricos" da escravidão, como se os escravos não tivessem gostado de ganhar uma estadia gratuita em um navio de passeio, casa, comida e roupa lavada, e conhecer as praias do Nordeste e as belas paisagens do Vale da Paraíba. 
Os últimos governos se preocuparam tanto em ressaltar que essa é uma sociedade laica e multicultural, deram tantos destaques às minorias como mulheres, negros, gays e bissexuais, que acabaram de esquecer que democracia é algo que também deve interessar à maioria! E a maioria é branca, católica e macho pacas.
Ok, talvez não sejamos a maioria, mas isso não nos torna uma minoria? Logo, não devemos ser menosprezados pelos defensores da multiculturalidade! Devemos, na verdade, ter um espaço de representação proporcional! Assim, já que 90% da população é cristã de alguma forma, 90% dos anúncios que defendem a multiculturalidade deveriam defender o respeito à fé cristã e somente ela. Está na hora dessas minorias saberem seu espaço na sociedade. Não toleraremos racismo ao reverso.


E é isso. Eu agora pergunto à você, querido leitor, o sonho de uma sociedade mais limpa, mais ordeira, próspera e feliz deve permanecer apenas isso, um sonho? Ou podemos aspirar à torná-lo uma realidade? 
Se começarmos hoje, poderemos mobilizar toda a classe de pessoas exploradas por esse Governo brutal que não respeita nossos direitos, reunindo toda a classe produtiva, aliada aos cidadãos de bem(s), para que se crie um governo verdadeiramente cidadão e que supere as crises dos tempos em que vivemos. 
E eu sei que as eleições já passaram, mas não precisamos esperar até as próximas para começar à agir e botar esse plano em marcha. Afinal, o outro movimento que salvou nossa pátria da ameaça de então não esperou até as eleições de 1965.

Franco Alencastro só fala sério quando está contando piadas.